emprestimoentreparticulares.comEmpréstimos entre particulares: contratos, riscos e alternativas
Fraude

Sem pagar nada antes de receber: custos legítimos e armadilhas

Nenhum mutuante sério lhe pede dinheiro antes de o entregar. Veja que custos são legítimos, a quem se pagam, como assinar contra transferência e como reagir se já enviou fundos.

Pessoa a verificar no telemóvel o comprovativo de uma transferência junto a um contrato assinado

Um empréstimo entre particulares sem custos adiantados é aquele em que o mutuário não paga nada ao suposto mutuante antes de receber o dinheiro. Qualquer pedido de «taxa de dossiê», «seguro», «caução» ou «imposto» enviado a quem promete o crédito é, na esmagadora maioria dos casos, o sinal de uma burla de adiantamento de comissões.

Isto não quer dizer que um empréstimo privado seja gratuito de formalizar. Existem custos legítimos, como notário, registo ou imposto do selo, mas pagam-se a entidades identificáveis, com recibo, e não a quem diz ir emprestar. Esta página separa uns dos outros, explica como pagar contra assinatura e o que fazer se já transferiu dinheiro.

Pagar antes de receber: o sinal número um de burla

O esquema é sempre parecido. Alguém, que se apresenta como particular ou «investidor», aprova o seu pedido em minutos, envia um contrato bonito e, no momento de libertar o dinheiro, surge um obstáculo: 150 € de seguro, 300 € de «validação», 480 € de «caução reembolsável». Paga-se, aparece outra taxa, e o dinheiro prometido nunca chega.

A psicologia é cruel: a vítima já pagou uma vez e acha que parar significa perder o que gastou. Por isso volta a pagar. Os burlões escolhem alvos em dificuldade, recusados pelos bancos, e dizem o que querem ouvir: «sem consulta», «sem fiador», «aprovação imediata». Nenhuma entidade séria promete isso nem exige pagamento antecipado ao credor.

Porque é que o argumento do «seguro» não vale

Alguns esquemas dizem que o seguro protege o mutuante e, por isso, tem de ser pago pelo mutuário antes. Um seguro real, quando existe, é contratado com uma seguradora autorizada, tem apólice, número e prémio debitado em conta própria, e muitas vezes é opcional. Nunca é uma transferência para o particular que diz ir emprestar.

Meios de pagamento que denunciam a fraude

Cupões pré-pagos, vales de supermercado, transferências para contas de pessoas que não são o mutuante, serviços de envio de dinheiro para outro país e criptomoedas são os meios preferidos de burlões, porque são difíceis de reverter. Se lhe pedirem um destes meios para uma «taxa», está provavelmente perante uma fraude.

Custos legítimos e pedidos suspeitos lado a lado

Custo ou pedidoQuando é legítimoA quem se pagaQuando é suspeito
Notário ou autenticação de documentoGarantias sobre imóveis ou formas exigidas por leiNotário, advogado ou profissional habilitado, com reciboPedido por transferência ao «mutuante» ou a um intermediário sem registo
Registo predial ou automóvelHipoteca ou reserva de propriedadeConservatória, em balcão ou sítio oficial«Taxa de registo» paga a um site desconhecido
Imposto do seloPode aplicar-se ao mútuo e aos juros, a confirmarAutoridade Tributária, por guia oficial«Imposto de libertação» pago ao mutuante
Avaliação de um bemQuando há garantia sobre um bemAvaliador independente, com faturaAvaliador imposto e pago ao próprio mutuante
SeguroOpcional, de vida ou do bemSeguradora autorizada, prémio em conta própria«Seguro de fiança» pago por transferência antes do crédito
«Caução» ou «taxa de dossiê»Não existe entre particulares legítimos—Sempre

O critério essencial é este: o dinheiro vai para uma entidade ou profissional identificável, por um serviço verificável, com documento de quitação. Se o pagamento vai para quem promete emprestar e não gera recibo oficial, trate-o como tentativa de fraude até prova em contrário.

Transferência contra assinatura: como se faz

A forma mais segura de equilibrar confiança é fazer a entrega do capital no mesmo momento da assinatura do contrato, e não antes nem depois. Se se tratar de uma garantia sobre um bem, a assinatura e o registo fazem-se com o profissional habilitado, que verifica a identidade das partes. A transferência pode ser feita durante o ato, com o comprovativo na mão.

Para empréstimos sem garantia, assine presencialmente ou por videochamada com ambas as partes visíveis, e peça a transferência ao vivo, com o comprovativo identificado com a descrição «empréstimo» e o número do contrato. Só depois de ver o dinheiro na conta deve considerar o empréstimo concluído, e antes não deve fazer qualquer pagamento.

Etapas para um empréstimo sem custos adiantados

  1. Confirme quem é o mutuante: nome completo, documento de identificação, morada e telefone.
  2. Se for uma empresa, verifique a autorização no Banco de Portugal ou na CMVM e procure alertas de entidades não autorizadas.
  3. Peça o contrato por escrito, com todas as condições e custos, antes de falar de datas.
  4. Leia o contrato e procure qualquer cláusula que obrigue a pagar algo ao mutuante antes do desembolso.
  5. Se houver custos legais, pague-os apenas ao notário, conservatória ou Autoridade Tributária, por meios oficiais.
  6. Combine assinatura e transferência no mesmo momento, presencial ou em videochamada.
  7. Confirme o dinheiro na sua conta e só então considere o empréstimo ativo.
  8. Guarde contrato, comprovativos e conversas durante todo o prazo do empréstimo.

Verificações de identidade que valem a pena

Confirmar a identidade evita muitos problemas. Peça o documento de identificação, compare o nome com o do titular da conta de onde virá o dinheiro, e faça uma videochamada breve. Procure o nome e o contacto em pesquisas para ver se há queixas. Perfis recentes, sem histórico, e fotografias genéricas são sinais de alerta.

Roubo de identidade do lado do mutuante

Quem empresta também deve ter cuidado: um suposto devedor pode usar documentos roubados. Compare fotografias, confirme a morada com um documento recente e transfira apenas para uma conta cujo titular coincida com o nome do contrato. Contas de terceiros, «para o meu primo», são um alerta.

O que não enviar

Evite enviar cópias de documentos de identificação em mensagens não protegidas, códigos recebidos por SMS, acessos ao homebanking ou fotografias do cartão. Nenhum mutuante legítimo precisa dos seus códigos de segurança. Se um «analista de crédito» os pede para «verificar a conta», está a tentar aceder ao seu dinheiro.

Já paguei: o que fazer de imediato

Se já enviou dinheiro, a rapidez conta. Contacte o seu banco imediatamente para tentar travar ou recuperar a transferência; quanto mais cedo, maiores as hipóteses, embora nada seja garantido. Não envie mais dinheiro, nem para «recuperar» o que perdeu: há burlões que se apresentam como recuperadores de fundos e cobram novas taxas.

Reunir prova e apresentar queixa

Guarde comprovativos, mensagens, anúncios, números de telefone e endereços. Apresente queixa na PSP ou na GNR, ou nos canais oficiais de denúncia, entregando a prova. Pode também reclamar no Livro de Reclamações, quando houver prestador de serviços identificável, e usar a plataforma Portal da Queixa. Informe o Banco de Portugal sobre entidades que se apresentam como autorizadas sem o serem.

Proteger o resto

Altere palavras-passe, avise o banco se deu dados de acesso, vigie movimentos e peça novo cartão se necessário. Se enviou cópia do documento de identificação, informe-se junto das autoridades sobre medidas contra o uso indevido. E converse com alguém de confiança: a vergonha é a aliada dos burlões, e denunciar ajuda a proteger outras pessoas.

Alternativas reguladas sem pagamentos antecipados

O crédito de instituições autorizadas pelo Banco de Portugal é concedido com informação pré-contratual e custos declarados; qualquer encargo deve constar da ficha informativa, e a recusa pode ser explicada. As plataformas de crowdlending autorizadas pela CMVM têm regras próprias. A DECO PROTESTE e o Portal do Cliente Bancário ajudam a verificar e comparar antes de decidir.

Se está endividado ou recusado, vale a pena pedir ajuda antes de se meter em esquemas: o regime PARI/RACE ajuda a regularizar incumprimentos com bancos e, em situações extremas, existe a insolvência de pessoa singular com exoneração do passivo restante, a analisar com um advogado.

Perguntas frequentes

Há empréstimos entre particulares totalmente sem custos? Sim, se o valor for pequeno e a forma legal não exigir intervenção de notário nem registo. Quando há garantias ou formalidades, existem custos, mas pagos a profissionais ou serviços públicos.

Posso pagar um «seguro» antes de receber o dinheiro? Não a quem promete emprestar. Se existir seguro real, contrate-o diretamente com uma seguradora autorizada, em seu nome.

O mutuante pode descontar custos do capital que me entrega? Só se estiver claramente escrito e for razoável; confirme o montante líquido que vai receber e desconfie de «descontos» sem fatura.

Como sei se a plataforma é legítima? Verifique o registo da CMVM para crowdlending e o Banco de Portugal para instituições de crédito; pesquise queixas e nunca confie apenas num site bem apresentado.

Já paguei, mas continuam a pedir mais. Devo pagar? Não. Pare de pagar, guarde a prova, avise o banco e apresente queixa. Cada novo pagamento aumenta a perda.

Organismos e serviços a contactar